Meu velho Ano Novo (José Sarney)

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SigaGoogle DiscoverLeoPatrizi/Getty Images 1 de 1 Foto colorida mãos de pessoas segurando o número 2026 - Foto: LeoPatrizi/Getty Images

É sempre o mistério do tempo que a graça de Deus nos concede. Antes de saudar com esperança o Ano Novo ­— que o Padre Antônio Vieira preferia usar a fórmula de “Bons Anos” para não sermos mesquinhos desejando um só, mas todos os anos futuros —, eu agradeço a Deus o ano que passou, em que nos foi concedida pelo Criador a graça da vida. Em cada ano que passa, vivemos. Meu avô quando fazia aniversário sempre dizia: “Ruim é não fazer.” Ele mesmo, que morreu aos noventa e seis anos, quando lhe perguntavam a sua idade, confessava, sem esconder nada e acrescentava: “Vê se tu chegas lá.”

O calendário marcado pelos dias gloriosos do ano me traz memórias desde a infância, nas sombras cinzas das lembranças daquele interior perdido nos campos verdes do Maranhão, quando íamos à igreja louvar o nascimento do Filho de Deus, cujas sandálias João Batista se dizia indigno de desatar, até a madurez da reza em comum com a família, lendo o Evangelho de São Lucas, que descreve o que aconteceu na manjedoura de Belém.

Na minha infância eu já sabia que comer gomos de romã na entrada do Ano Novo assegurava que o novo ano nos tratasse bem. Depois descobri que em toda entrada de ano as pessoas colocavam, para a passar a meia-noite, um dinheiro no bolso. Assim não teriam dificuldades financeiras.

Hoje, vejo que os anos da fase do conhecimento e da comunicação gostam de lentilhas — que no interior do Maranhão nem se sabia o que era —, roupa branca, flores no mar, velas na praia e fogos de artifício. Aqueles meus primeiros anos gostavam de sinos da meia-noite, rezas, ladainhas e louvações. Outro costume daquele tempo era dar esmolas, fazer ceia para os mendigos (coisa que minha mãe nunca deixou de fazer) e comer Garibaldi: as ossadas do peru da ceia preparadas num cozido ensopado com pirão do caldo.

Naquele tempo só havia um Senhor do universo: o Criador. Hoje existem muitos deuses. O pior deles, o deus da guerra, não desaparece de muitas partes do mundo; mais forte no Oriente, em Gaza, e na Ucrânia.
Na Pinheiro da minha infância, nenhum bicho preto podia aparecer na rua no dia primeiro do ano. Eram escondidos, presos nos currais, sem direito a circular. Traziam mau agouro.

Outras coisas eram comentadas em segredo: os maridos deviam, na noite da passagem de ano, “procurar” suas esposas, o que traria felicidade no casamento. Por isso, talvez, o rosto delas fosse enigmático na véspera do Ano-Novo, uma contida alegria. Quando soube disso, já menino grande, eu as olhava com olhos desconfiados.

Com o passar dos anos, no mar alto da guerra pela sobrevivência, com as lembranças todas acumuladas como se fosse um depósito de coisas arquivadas, percebo que a infância é eterna e diferenciada. É dela que retiro uma personagem daqueles anos.

Maria Roxa, crioula tida como doida, rodopiando brejeira, com uma flor no cabelo, chega na porta de nossa casa, os meninos rindo de sua loucura, cantando. De repente ela levanta a saia e grita: “Olha a onça”. E aí nossa inocência ia embora.

O mundo precisa recuperar um pouco a sua inocência, no sentido de não praticar o mal. Precisamos valorizar a vida, o infinito número de coisas boas que Deus nos deu, com que convivemos. Inclusive as pessoas, que Deus fez a Sua imagem e semelhança e que, em imensa maioria, praticam o bem e rejeitam o mal.

Se há muitos sinais ruins, nós aqui no Brasil começamos o Ano Novo com pleno emprego, os salários em alta, a economia superando os desafios, a democracia consolidada, sem desastres maiores e cheios de esperança. Esta é a mensagem que envio a todos: um Ano Novo cheio de esperança!

 

 

 

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