Família acusa Estado pela morte de um detento

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Marisa Ferreira e Nádia Ferreira estão decididas: vão processar o Estado para que ele arque com as despesas da criação dos dois filhos do preso provisório André Wagner Ferreira da Silva, 30 anos. As duas, respectivamente, mãe e irmã do detento, têm certeza que André foi torturado e espancado na Penitenciária Estadual de Alcaçuz, em Nísia Floresta, onde estava preso, antes de morrer, na manhã de domingo, no hospital Giselda Trigueiro, na zona Norte de Natal.

O ex-vendedor de celular André Wagner foi preso no dia 1º de julho. Ele se entregou à Polícia e confessou ter assassinado a mulher, Joselma Elias da Silva - ela foi esfaqueada e teve a cabeça arrancada na frente dos filhos do casal, de dois e seis anos, no dia 30 de junho. E é pensando justamente nessas duas crianças, que a família do detento quer processar o Estado. “Os meninos agora não têm nem pai, nem mãe e isso é culpa do sistema prisional. Meu irmão foi espancado. Isso foi um homicídio”, acusou a irmã do detento, Nádia Ferreira.

“Meu filho estava com um problema na cabeça, mas não tinha nada do corpo. Como é que ele pode ter sido internado do jeito que foi?!”, questiona Marisa Ferreira. A pergunta da mãe é referente à forma como André chegou ao hospital Deoclécio Marques, em Parnamirim: várias queimaduras pelo corpo, uma lesão na cabeça e inúmeros hematomas. “Nem avisar que ele havia sido internado, avisaram. Soubemos por um amigo da família que o reconheceu no hospital e ligou para dizer”, contou Nádia Ferreira.

André Wagner foi internado no dia 14 deste mês após, segundo a família, passar aproximadamente 45 dias “no castigo”, uma cela isolada da Penitenciária de Alcaçuz. “Ele ficou esse tempo todo lá sem poder receber visitas. Não nos deixavam nem saber como ele estava e nem porque estava ali. Até por isso, nem o reconheci direito quando o vi no hospital. Ele estava mesmo que um bicho: barba e cabelos grandes, várias feridas pelo corpo”, revelou Nádia Ferreira.

No mesmo dia em que chegou ao Deoclécio Marques e, inconsciente, recebeu a visita da mãe e da irmã, o detento foi transferido para o Hospital Giselda Trigueiro. “Disseram que ele estava com suspeita de meningite e uma infecção muito grande. Por isso, o mandaram para lá”, revelou a irmã.

No Giselda Trigueiro, André Wagner permaneceu internado e inconsciente até falecer, no domingo. O Hospital preferiu não se pronunciar sobre a causa da morte, deixando isso a cargo do Instituto Técnico Científico de Polícia (Itep). E no laudo provisório do órgão (o oficial deve sair só em 30 dias), a causa da morte descarta, facilmente, a meningite: “edema e hemorragia intra craniana provocada por traumatismo craniano e encefálico resultado de uma ‘ação contundente”. O trecho está na copia do documento entregue à família e está assinado pela médica legista Maria Lucemere Mota Rolim. No laudo também foi registrado uma septicemia – infecção geral grave do organismo por germes patogênicos.

Além do laudo, a família pretende usar para confirmar a responsabilidade do Estado na morte um vídeo feito por Nádia que mostra o corpo de André Wagner, já sem vida no Giselda Trigueiro, com vários hematomas e queimaduras (de primeiro, segundo e terceiro graus). “Parece até que deram vários choques nele. Tenho certeza que não foram os outros presos. Até porque, ele estava isolado”, afirmou Nádia Ferreira. Os ferimentos estavam nas mãos e nos pés (que foram enfaixados), no abdômen, nas axilas e no pescoço.

“Ele não era louco, nunca tomou remédio controlado, mas teve um surto psicótico. Não digo que ele é inocente, tinha que pagar pelo que fez, mas jamais morrer por isso. O Brasil não tem pena de morte. Ele precisava de um tratamento”, questionou a irmã do preso, que foi enterrado na manhã de ontem, no cemitério Bom Pastor 1.

Direção de Alcaçuz nega acusações da família

O coordenador da Penitenciária de Alcaçuz, o coronel Clodoaldo Carneiro de Souza, nega qualquer ação policial ou dos presos contra André Wagner. “Ele estava isolado todo esse tempo, até por ser um preso considerado de alta periculosidade. Nenhum dos agentes penitenciários tocou nele”, respondeu Clodoaldo, dizendo desconhecer os ferimentos apresentados pelo detento quando foi internado no Deoclécio Marques e, depois, no Giselda Trigueiro – e que foram confirmados pela médica legista.

O secretário de Estado da Justiça e da Cidadania (Sejuc), Leonardo Arruda, também afirmou desconhecer qualquer lesão de André Wagner e que poderia ter sido causada por algum outro detento ou por agentes penitenciários. O secretário reafirmou a possibilidade de meningite, mostrando certa contradição no motivo pelo qual o detento teria sido levado para o isolamento. “A informação que tenho é que ele teria sido isolado porque estava com essa doença, que é muito contagiosa. Além disso, existe a ouvidoria do sistema penitenciário  e não há registros de reclamações nesse sentido, por isso, desconhecemos essas acusações de maus-tratos”, contou Leonardo Arruda.

Reincidência

Essa não é a primeira vez que a direção de Alcaçuz deixa de informar a família do detento quando ele sofre algum tipo de problema físico. No dia 4 deste mês, o preso Alexsandro Teodório de Medeiros da Silva, 27, foi baleado na perna dentro da Penitenciária e precisou ser internado no hospital Walfredo Gurgel. Familiares só souberam do ocorrido no dia 7, quando foram visitar o preso em Alcaçuz e não tiveram acesso a ele.

A direção do presídio ainda chegou a explicar para a família de Alexsandro havia sido internado depois de ter sido esfaqueado por outro preso dentro da cela. Só depois que o caso chegou a imprensa, a direção do presídio assumiu o disparo, mas justificou que ele teria sido acidental: Alexsandro tentou tomar a arma de um dos agentes penitenciários quando era conduzido para a cela e acabou sendo baleado.

Memória

André Wagner da Silva assassinou Joselma Elias da Silva, 25, com uma faca peixeira, arrancou a cabeça dela e colocou dentro de uma sacola plástica e ainda a escondeu em um terreno baldio. Pouco depois, se entregou à Polícia e assumiu o crime, justificando que o teria feito porque a mulher estava falando mal da mãe dele. “Não me arrependo nem um pouco, ela falava mal de meu pai e minha mãe, dos meus irmãos da terra, do mar e do céu” afirmou André ao se entregar. 

Depois de preso, André foi encaminhado para a Delegacia de Plantão da Zona Sul, em seguida, para o Centro de Detenção Provisório (CDP) de Pirangi. Ainda passou pela 8ª Delegacia de Polícia, agora funcionando em Felipe Camarão, antes de ser levado para Alcaçuz. “Ninguém queria ficar com ele porque diziam que os outros presos iriam matá-lo”, lembrou a irmã de André, enquanto a mãe se recorda da última vez que o viu: “ele estava perguntando pela outra irmã, que é evangélica. Estava muito aflito. Foi antes de tudo acontecer. Ele sempre foi um rapaz bom, meu único filho homem”. Segundo Marisa, André havia se convertido e virado evangélico pouco antes da morte da mulher. Andava constantemente com a bíblia embaixo do braço e havia parado de trabalhar.

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